O que é camuflagem no autismo?
Nem sempre uma pessoa autista demonstra externamente tudo aquilo que está vivenciando internamente.
Em determinadas situações sociais, algumas pessoas podem desenvolver estratégias para esconder, controlar ou compensar características relacionadas ao autismo, buscando se adaptar às expectativas das pessoas ao redor.
Esse fenômeno é conhecido na literatura como camuflagem social, ou camouflaging. Também é comum encontrar o termo masking, ou mascaramento.
Isso pode acontecer de maneira consciente ou automática.
A pessoa pode, por exemplo, observar como os outros se comportam e tentar reproduzir determinados comportamentos para parecer mais confortável em uma situação social.
Pesquisas descrevem diferentes estratégias de camuflagem, incluindo comportamentos de imitação, compensação e tentativa de esconder determinadas características.
Por que uma pessoa autista pode camuflar seus comportamentos?
A camuflagem não acontece simplesmente porque a pessoa “quer esconder quem é”.
Muitas vezes, ela pode estar relacionada à necessidade de ser aceita, evitar julgamentos ou lidar com ambientes que não estão preparados para diferentes formas de comunicação e interação.
Entre os motivos descritos nas pesquisas estão:
– desejo de pertencer a um grupo;
– medo de rejeição ou julgamento;
– tentativa de evitar situações constrangedoras;
– necessidade de se adaptar ao ambiente;
– experiências anteriores de bullying ou exclusão;
– pressão para seguir determinados padrões sociais.
Uma revisão sistemática que reuniu 58 estudos identificou justamente a influência das normas sociais, da aceitação ou rejeição e da autoestima e identidade sobre o processo de camuflagem.
Em outras palavras: às vezes, a pessoa aprende que demonstrar determinadas características pode fazer com que seja tratada de maneira diferente.
Então, ela aprende a escondê-las.
Como a camuflagem pode aparecer no dia a dia?
A camuflagem pode assumir diferentes formas e não acontece da mesma maneira para todas as pessoas.
Alguns exemplos descritos na literatura incluem:
👀 Forçar contato visual
A pessoa pode se esforçar para manter contato visual porque aprendeu que isso é esperado durante uma conversa.
🗣️ Ensaiar conversas
Algumas pessoas podem pensar antecipadamente no que vão falar, preparar respostas ou até ensaiar determinadas interações.
🙂 Imitar comportamentos sociais
Observar como outras pessoas gesticulam, sorriem, conversam ou reagem e tentar reproduzir esses comportamentos.
🤫 Esconder comportamentos naturais
A pessoa pode tentar controlar movimentos, sons ou outras formas de autorregulação para evitar chamar atenção.
🧠 Monitorar constantemente o próprio comportamento
Durante uma conversa ou situação social, pode existir uma preocupação constante com perguntas como:
“Estou olhando o suficiente?”
“Estou falando demais?”
“Será que minha reação foi adequada?”
Isso pode tornar uma situação aparentemente simples muito mais cansativa.
“Mas ela parece tão sociável…”
Esse é um dos pontos importantes quando falamos sobre camuflagem.
Uma pessoa autista pode aprender estratégias sociais e utilizá-las com bastante eficiência.
Isso não significa necessariamente que determinada situação seja fácil para ela.
Existe uma diferença entre conseguir realizar determinado comportamento e realizá-lo sem esforço significativo.
Uma pessoa pode participar de uma festa, conversar, sorrir e interagir durante algumas horas e, ainda assim, precisar de bastante tempo depois para descansar e se recuperar do esforço envolvido.
Pesquisas qualitativas relatam justamente experiências de grande esforço mental, exaustão e necessidade de recuperação associadas à camuflagem.
Por isso, olhar apenas para o comportamento externo pode não revelar toda a experiência daquela pessoa.
Camuflagem pode dificultar a identificação do autismo?
Pode.
Quando características autistas são menos aparentes devido ao uso de estratégias de camuflagem, existe a possibilidade de algumas necessidades passarem despercebidas.
Esse aspecto tem sido especialmente discutido em pesquisas sobre pessoas que recebem o diagnóstico de autismo mais tarde na vida.
Mas é importante fazer uma ressalva:
camuflagem não é sinônimo de diagnóstico tardio e nem todas as pessoas autistas camuflam da mesma maneira.
A pesquisa sobre o assunto ainda apresenta limitações e não permite generalizar suas conclusões para toda a população autista. Estudos recentes destacam justamente a necessidade de ampliar a diversidade dos participantes das pesquisas.
E quais podem ser os impactos?
Camuflar determinados comportamentos pode, em algumas situações, ajudar uma pessoa a navegar por ambientes sociais.
Por exemplo, pode facilitar a participação em uma atividade ou ajudar alguém a evitar uma situação de rejeição.
Porém, quando a camuflagem exige esforço constante, ela também pode se tornar desgastante.
Estudos encontraram associações entre níveis maiores de camuflagem e dificuldades relacionadas à saúde mental, embora os pesquisadores ressaltem que essa relação é complexa e não significa que a camuflagem seja, isoladamente, a causa desses problemas.
Entre os impactos relatados por pessoas autistas estão:
– exaustão;
– estresse;
– dificuldade de reconhecer as próprias necessidades;
– sensação de perda de identidade;
– isolamento;
– redução da autoestima;
– dificuldade para estabelecer relações mais autênticas.
Por isso, é importante não transformar a camuflagem em uma explicação única para todas as dificuldades emocionais de uma pessoa autista.
Camuflar é sempre algo negativo?
Não necessariamente.
Essa é uma parte importante da conversa.
A literatura mostra que a camuflagem pode ter funções diferentes dependendo do contexto.
Para algumas pessoas, determinadas estratégias podem ajudar a atravessar uma situação social, evitar conflitos ou se proteger em ambientes pouco acolhedores.
O problema pode surgir quando a pessoa sente que precisa esconder constantemente quem é para ser aceita.
Em vez de perguntar apenas:
“Como podemos fazer essa pessoa se comportar de maneira mais adequada?”
Também podemos perguntar:
“Como podemos tornar esse ambiente mais acessível para que ela não precise se esforçar tanto para se encaixar?”
Essa mudança de perspectiva é fundamental quando falamos em inclusão.
Como podemos criar ambientes mais acolhedores?
A inclusão não depende apenas da pessoa autista aprender a se adaptar.
O ambiente também pode se adaptar.
Algumas atitudes podem ajudar:
✅ Respeitar diferentes formas de comunicação
Nem todo mundo se comunica da mesma maneira. Olhar nos olhos, falar muito ou demonstrar emoções de determinada forma não deveria ser usado isoladamente como medida de interesse, respeito ou inteligência.
✅ Evitar exigir comportamentos apenas para “parecer normal”
Se determinado comportamento não é necessário para a atividade, talvez não exista motivo para exigir que a pessoa o faça apenas para atender a uma expectativa social.
✅ Oferecer previsibilidade
Explicar previamente o que vai acontecer, mudanças na rotina e expectativas de uma atividade pode reduzir incertezas.
✅ Respeitar necessidades sensoriais
Permitir pausas, ambientes mais tranquilos ou recursos de autorregulação pode fazer diferença.
✅ Escutar a própria pessoa
Talvez essa seja uma das atitudes mais importantes.
A pessoa autista deve participar das decisões sobre suas necessidades, estratégias e formas de apoio sempre que possível.
Mais do que ensinar a pessoa a se encaixar
Falar sobre camuflagem no autismo nos leva a uma reflexão maior sobre inclusão.
Durante muito tempo, a responsabilidade pela adaptação foi colocada quase exclusivamente sobre a pessoa autista:
“Ela precisa aprender a se comportar.”
“Ela precisa aprender a socializar.”
“Ela precisa aprender a se encaixar.”
Mas inclusão também significa transformar os ambientes, reduzir barreiras e compreender que existem diferentes maneiras de se comunicar, aprender, interagir e participar.
A pessoa autista não deveria precisar esconder constantemente suas características para ser respeitada.
Ser diferente não deveria significar estar errado.
Conclusão
A camuflagem no autismo é um fenômeno complexo e que pode se manifestar de diferentes maneiras.
Algumas pessoas desenvolvem estratégias para navegar melhor pelas situações sociais, enquanto outras podem experimentar um grande desgaste ao tentar esconder ou controlar características próprias.
Por isso, compreender o conceito é importante não para “identificar quem está mascarando”, mas para ampliar nosso olhar sobre as diferentes experiências dentro do espectro autista.
Quanto mais informação existe sobre o autismo e a neurodivergência, maior é a possibilidade de construirmos ambientes onde as pessoas não precisem escolher entre ser quem são e pertencer.
Informação também é uma forma de inclusão. 💙🧩